
num tal verso que se escreve
e levantar um contentamento
observar, gesto que se percebe
E pra irradiar um sentimento
Mão-Dupla - é a estrada literária, passagem de duas vias que é todo o ler e/ou escrever... Escreve também quem lê, pois cria, inventa o que ver... E lê também aquele que escreve, quando a mão é livre pra escrever, há sempre uma surpresa e um reencanto no ato de reler, reaprender... Liberdade e palavras: ingredientes fundamentais da poesia genuína.












Meu riso hoje acordou leve
sorrindo afetuoso até alcançar
a leveza dum floco de neve
que é natural em se fazer nevar
Sinto-me pleno e nutrido de amor
meus braços querem tanto abraçar
meu corpo expulsa um novo calor
é difícil dizer, queria mesmo mostrar
Finalmente pude aceitá-la assim como ela é, a felicidade
sempre maior no entusiasmo que em qualquer euforia
aprendi que só sendo humilde se pode ser feliz de verdade
minha natureza, meu passo, é só pura expressão de alegria
Hoje reencontro aquele traço, desenho de minha essência
que é sutil na beleza, e é incólume de qualquer indecência
Divisão também sempre multiplica, bastando ter paciência
Doação é também recebimento, é alma sabida, permanência
Encontro paz na vivência simples dum pessoal tal prazer
Só sabe se é mesmo capaz quem arrisca, quem faz acontecer
Sinto-me tão vivo, firme em minha nova diretriz
Imaturo é só o meu ego, desejando querer ser feliz
Quem vive num desejo todo solto, o faz como uma meretriz
quem se entrega aos ruídos revoltos é sinal que está infeliz
Meu sorriso quer esticar a flor do horizonte
num silêncio tão denso tal qual o de um monge
e quer contagiar inclusive o que há lá bem longe
sedento pra experimentar o sabor único da fonte
Feito um par de andorinhas esses meus olhos
dançam catárticos abraçando toda a paisagem
eles transformam tudo ao meu redor em arte
concisa e discreta, capturada em cada imagem
arquetipo daquela epifânia que sempre me reparte
num coração que vai além, anterior à linguagem
vida plena-plena traz sempre o risco dum infarte
tenso e ameno
intenso e sereno:
Indomável amor, ventania num carisma selvagem
Não mais dói a dor em quem faz sempre sua parte

ilustração de Marina Papi .
Magma vibrante, fluido e sentimental
íntimidade errante, profunda e abissal
abalo sísmico, cismando me trazer à tona
o desconhecido ser-me eu, no mais atual
que mal reconheço mas que sempre retoma
tudo muda sempre, a moda agora é cafona
Mas algo permanece, algo continua igual
então me estranho, tudo me passa e me foge,
como se eu acordasse de um longo coma
existo alheio a tudo, como isso pode?
Agrego em mim cada vivência que soma
Que mixto-mistério é esse, caldo de emoção?
Que sensações são estas em árdua erupção?
Por tanto tempo eu não me fui
e nisso perdi a conta, dos dias
das horas, dos sonhos, das perdas
permiti pedras florescerem, pura agonia
uma avalanche a soterrar minha alegria
A alegria é, simples e naturalmente, pura vontade de viver
Agonia é sofrer, inerente à realidade que dói sem renascer (?) ...
Eu corro, em fogo, calor de fugir sem aquecer
me escondendo das memórias e intrigas
abandonando as regras do jogo, só pra saber
Qual de todas as inúmeras mentiras
me reinventa e me recicla,
sem que eu possa perceber?
Não engulo o grito
fujo do que omito
mudo de assunto
Eu minto..
pra entender, confundo
e esclarecer à fundo
esse conjunto mundo:
universo que sinto...

(sistema rítimico de rimas análogo ao do soneto da fidelidade,
de Vinicius de Moraes) .
De tudo ao meu redor só sinto o vento
os olhos fechados através do encanto
os sentidos fortes e o coração de santo
o amor pulsando em cada pensamento
A vida é amiga de quem viver cada momento
e em seu calor eu desejo aquele tal, um tanto
quanto intenso, seja alegria ou então pranto
corajoso e que se arrisca, genuíno sentimento
Sendo assim, não há nada que enfim me cure
quem sabe a sorte, encanto que sim, já tive
quem sabe a imensidão, mistério que derrama
Eu possa então reencontrar aquele amar que me vive
e que é natural, e imune a todo ou qualquer outro drama
que estimule firme tal emoção leal, que dure e que perdure...
(gozando a existência, como um fogo, que inflama)
uF
Soneto da Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes