". . . porque todo grande artista guarda uma imensa indignação política por detrás de cada beleza inventada . . ."
[uF]

quinta-feira, 31 de março de 2011

Diretriz da seta












ilustração de Marina Papi .

Do que adianta estar diante da pura verdade

e não poder conter essa imensa vontade

de pedir desculpas, toda hora, repetidamente?


De cada erro estúpido, que só agora é consciente

adiantaria de alguma coisa meus amigáveis perdões?

Se sou eu mesmo quem ainda não me perdôo

será inútil ser poliglota de inúmeros outros corações?

Não consigo interpretar o meu próprio agouro...

Se o meu próprio coração é indecifrável nas emoções

sou incapaz de traduzir seu chôro e suas reais intenções...


De que me adianta pois ficar criando esse isolamento,

esse mórbido elogio à solitária e escondida distância

numa espera da ilusão de um sentimento de segurança?

Esse meu solitário silêncio em nada afeta

Me escondendo

me evitando

feito criança com uma emoção secreta


Enfrentando os erros é que se revela e se renova a meta

É na coragem de cumprir as curvas que se atinge a reta

Nem tão explodindo, nem tampouco quieta

a mente serena é atenta e é também aberta


Sem medo de errar, é preciso estar sempre alerta

é graças ao risco de tentar que algum dia se acerta

Mesmo confrontado com a emoção mais sapeca

a alma só está viva no agora, na diretriz da seta..

Quase sem querer







ilustração de Marina Papi .


-um poema de quase amor-


Tenho pensado em você

ou em como eu gosto

de pensar que você é

não é à toa esse tal prazer

porque aliás nada é à toa

Mas tem sido assim te pensar

deleite que não quero esquecer

há tempos me afastei das paixões

até você enfim me aparecer

fazendo cãimbra em minhas bochechas

tamanho é o sorriso que não me cabe

nem quando me esforço pra fazer caber

Essa novidade, esperar você me aparecer

É te querer inteiramente, hoje e aqui e agora

E estou tão sereno assim como estou

Queria expressar isso a todo o mundo lá fora

Queria repartir isso, dividir com você

ou melhor, queria multiplicar sem mais demora

Pois ficou tudo melhor ao você aparecer

Diálogo Poético ou MosaiCOnjunto










ilustração de Marina Papi .

"conversa entre dois poetas oralmente calados, munidos de uma única folha de papel, um lápis apenas e duas inspirações tagarelas entre si..."


Jandeílson Bezerra escreveu no topo de uma folha em branco:

“Representatividade do desconhecido”


Ao passo que Uirá Felipe escreveu logo abaixo, criando um subtítulo:

- … A ponte entre pontes … -


Até então não sabiam nem o quê e nem como, apenas decidiram que escreveriam ambos numa mesma narrativa poética. Assim sendo, Jandeílson prosseguiu, dando início ao diálogo-poema:


JB:


Caminhos que levam até onde não sei

se perfazem em segredos, nessa tua selva

que vislumbra o mais silencioso de teu desconhecido

e assim eu tento, por essa minha letra tremida

mergulhar nessas ideias que o atormentam

essa sua infinita busca ousada e atrevida

esse seu mar de estrelas que o acalentam

e transbordam pela taça desse teu suave veneno

que faz até meu próprio íntimo parecer pequeno


Calar-me pois?!!


(O que te gera essa incerteza, certa certeza disso viver?)


Poesia que me decompôs...



Então Jandeílson começou a demorar muito pra escrever o próximo verso, e Uirá Felipe, impaciente, tomou a folha de papel de suas mãos e se pôs-se a ler compenetradamente os versos acima. A vontade de entender superou a dificuldade de decifrar a grafia de Jandeílson, tão imprecisa quanto a sua própria. Deu um longo suspiro, olhou para a parede e refletiu por ligeiros instantes. Tomou para si o lápis e sentiu o vento subir-lhe o peito, fazendo aquela faísca elétrica que os poetas chamam de inspiração. Começou então a escrever incessantemente, tentando responder àqueles versos enquanto ia levantando muitas outras questões...


UF:

Essa pergunta, essa sua pergunta, o que ela me pergunta? Dúvida, questão em poesia conjunta... Receber isso movimenta em mim a curiosidade característica mais próxima daquilo que existencialmente me faz, afinal, a busca nos desfine quando nos tornamos aquilo que sonhamos... porque...


Eu sonho em realizar sonhos

e inventar explicações que

façam encantos tornarem-se realidade


Milagre é eu me aproximar da expressão

que ilumine a tal representatividade do desconhecido..

Será representável o não conhecimento?

O vazio tem forma? E o infinito, que forma tem?

Milagre é a multiplicação, a evolução, o crescimento

é a vontade do aventureiro, o sentido do sentimento


É o transformar num coletivo o que era particular

é o tornar público ou plural o que era antes singular


Então pergunto:


De onde vem a certeza dessas minhas incertezas e indagações?

Porque elas são tão convencidas de suas dúvidas e suas questões?

A verdade é que eu não sei, não sei de nada

enquanto caminho não vejo o fim da estrada


E não entendo, e nem mesmo quero entender

Pois o que mais quero é o meu próprio querer,

Querer entender é meu próprio seguir, meu caminhar,

Não quero saber ao certo onde pretendo chegar

porque é exatamente onde não entendo

que em tropeços num susto eu aprendo

errar é também viver, nunca me arrependo...


E minha vontade então só me é possível

diante de uma aparente impossibilidade

desafiosa exploração desenfreada

furiosamente em busca do reconhecimento

de algum inédito desconhecido

Pode o inesplicável ser resumido?


Querer tentar explicar o meu exato presente

do imediato querer, implícita pulsão da mente

Essa é a loucura inconsequente que me quebra

Pois é precisamente a dúvida o que eu almejo

minha livre vontade em si mesma se encerra

Ela deseja sentir-se em seu próprio (ser-)desejo


Só o que me causa incerteza

é capaz de gerar a tal beleza

de querer ser, sentir-se certeza


Não consigo decodificar as regras da existência

Minhas respostas terminam ou com reticências

ou com muitos pontos de interrogação,

se exaurem tagarelas de impaciências

até o cansaço dissolver qualquer noção

E turvam naturais transparências

manipulam o real e as aparências

Até sentir em mente o pulso do coração


Tão inevitável quanto aforça da gravidade

é a minha atração pela inventividade

vertiginoso olhar meu que é tão atirado

reconhece do breu só o que é inventado


[A mentira só é de verdade (porque) a verdade é de mentira]


A verdade é uma palavra, isso eu sei, é uma ideia

só uma ideia entre tantos milhos no milharal

E o que é que todos nós realmente somos afinal

senão uma grande orgia de ideias

misturadas num wikipédia emocional?


Enquanto Uirá escrevia, Jandeílson, ansioso, já ia lendo, verso por verso, e pensando, entendendo e não entendendo. E assim que Uirá finalmente interrompeu sua catárse poética para olhar Jandeílson, ele tomou o papel de suas mãos e ligeiramente concluiu:


JB:

(…) … e me perdoe a irrepresentatividade daquelas pontes entre pontes,

Ao não finalizar essa ideia, você vai ver

vai te permitir enfim você mesmo o fazer

É que pra mim também ainda há muitos horizontes

há tanto que não consigo entender

e nem posso, nem quero,

não hei de compreender...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Experiência






















ilustração de Marina Papi .
pisa o pé devagarinho
sente os primeiros grãos de areia tocar-lhe
e então enfia o pé enterrando-o desengonçado
como se fosse ele ser por inteiro soterrado..
caminha pesado, a areia cansa..
o sol nem sente, procura o cheiro úmido
da brisa marítima de dança
sente a maresia enebriar-lhe
e então o som das ondas o congela
fica imóvel para ouvir melhor
olhos fechados pra abrir-se, janela
quer calar mas não consegue
sorri de corpo e braços abertos
não há porque esperar, o convite está dado
e fica ali, adiando e estendendo aquele momento
coloca o pé devagarinho até sentir-se em derretimento
e então derrete-se feito ela, a água
e se joga, faz das ondas em contra-corrente
seu estímulo de impulso pra agir, nadar
as ondas que vêm contra vão lavando a sua mente
levando o passado pra trás, e de presente o céu, calmo, e o mar..

sexta-feira, 11 de março de 2011

Hiato Ambiguo












ilustração de Marina Papi .
assobio no escuro
estarei sosinho?
quero me ouvir
e saber-me
saber que estou ali

me separei de meu corpo?
e como estou vivo se
estou no outro?
vejo espelhos e abraços
ao meu redor me vejo em tudo
só não me vejo mesmo em mim..

serão só remédios
ou controle em comprimidos?
emoções nada inéditas, estranhas
meus humores andam reprimidos
num vazio propósito que é só direção
porque parei de me procurar então?
onde vou encontrar inspiração?

o silêncio me aglutina
em mistério sem entusiasmo
paradoxos ou pensamentos?
não durmo e assobio
no escuro, no frio
eu mal deliro, não crio
não me acostumo com o vazio

queria ter pressa mas estou tranquilo
me sinto sombrio e sem estilo

quero procurar, mas estou ambiguo
já não sei o que desejo encontrar
sou eu mesmo meu proprio abrigo