". . . porque todo grande artista guarda uma imensa indignação política por detrás de cada beleza inventada . . ."
[uF]

quinta-feira, 31 de março de 2011

Diálogo Poético ou MosaiCOnjunto










ilustração de Marina Papi .

"conversa entre dois poetas oralmente calados, munidos de uma única folha de papel, um lápis apenas e duas inspirações tagarelas entre si..."


Jandeílson Bezerra escreveu no topo de uma folha em branco:

“Representatividade do desconhecido”


Ao passo que Uirá Felipe escreveu logo abaixo, criando um subtítulo:

- … A ponte entre pontes … -


Até então não sabiam nem o quê e nem como, apenas decidiram que escreveriam ambos numa mesma narrativa poética. Assim sendo, Jandeílson prosseguiu, dando início ao diálogo-poema:


JB:


Caminhos que levam até onde não sei

se perfazem em segredos, nessa tua selva

que vislumbra o mais silencioso de teu desconhecido

e assim eu tento, por essa minha letra tremida

mergulhar nessas ideias que o atormentam

essa sua infinita busca ousada e atrevida

esse seu mar de estrelas que o acalentam

e transbordam pela taça desse teu suave veneno

que faz até meu próprio íntimo parecer pequeno


Calar-me pois?!!


(O que te gera essa incerteza, certa certeza disso viver?)


Poesia que me decompôs...



Então Jandeílson começou a demorar muito pra escrever o próximo verso, e Uirá Felipe, impaciente, tomou a folha de papel de suas mãos e se pôs-se a ler compenetradamente os versos acima. A vontade de entender superou a dificuldade de decifrar a grafia de Jandeílson, tão imprecisa quanto a sua própria. Deu um longo suspiro, olhou para a parede e refletiu por ligeiros instantes. Tomou para si o lápis e sentiu o vento subir-lhe o peito, fazendo aquela faísca elétrica que os poetas chamam de inspiração. Começou então a escrever incessantemente, tentando responder àqueles versos enquanto ia levantando muitas outras questões...


UF:

Essa pergunta, essa sua pergunta, o que ela me pergunta? Dúvida, questão em poesia conjunta... Receber isso movimenta em mim a curiosidade característica mais próxima daquilo que existencialmente me faz, afinal, a busca nos desfine quando nos tornamos aquilo que sonhamos... porque...


Eu sonho em realizar sonhos

e inventar explicações que

façam encantos tornarem-se realidade


Milagre é eu me aproximar da expressão

que ilumine a tal representatividade do desconhecido..

Será representável o não conhecimento?

O vazio tem forma? E o infinito, que forma tem?

Milagre é a multiplicação, a evolução, o crescimento

é a vontade do aventureiro, o sentido do sentimento


É o transformar num coletivo o que era particular

é o tornar público ou plural o que era antes singular


Então pergunto:


De onde vem a certeza dessas minhas incertezas e indagações?

Porque elas são tão convencidas de suas dúvidas e suas questões?

A verdade é que eu não sei, não sei de nada

enquanto caminho não vejo o fim da estrada


E não entendo, e nem mesmo quero entender

Pois o que mais quero é o meu próprio querer,

Querer entender é meu próprio seguir, meu caminhar,

Não quero saber ao certo onde pretendo chegar

porque é exatamente onde não entendo

que em tropeços num susto eu aprendo

errar é também viver, nunca me arrependo...


E minha vontade então só me é possível

diante de uma aparente impossibilidade

desafiosa exploração desenfreada

furiosamente em busca do reconhecimento

de algum inédito desconhecido

Pode o inesplicável ser resumido?


Querer tentar explicar o meu exato presente

do imediato querer, implícita pulsão da mente

Essa é a loucura inconsequente que me quebra

Pois é precisamente a dúvida o que eu almejo

minha livre vontade em si mesma se encerra

Ela deseja sentir-se em seu próprio (ser-)desejo


Só o que me causa incerteza

é capaz de gerar a tal beleza

de querer ser, sentir-se certeza


Não consigo decodificar as regras da existência

Minhas respostas terminam ou com reticências

ou com muitos pontos de interrogação,

se exaurem tagarelas de impaciências

até o cansaço dissolver qualquer noção

E turvam naturais transparências

manipulam o real e as aparências

Até sentir em mente o pulso do coração


Tão inevitável quanto aforça da gravidade

é a minha atração pela inventividade

vertiginoso olhar meu que é tão atirado

reconhece do breu só o que é inventado


[A mentira só é de verdade (porque) a verdade é de mentira]


A verdade é uma palavra, isso eu sei, é uma ideia

só uma ideia entre tantos milhos no milharal

E o que é que todos nós realmente somos afinal

senão uma grande orgia de ideias

misturadas num wikipédia emocional?


Enquanto Uirá escrevia, Jandeílson, ansioso, já ia lendo, verso por verso, e pensando, entendendo e não entendendo. E assim que Uirá finalmente interrompeu sua catárse poética para olhar Jandeílson, ele tomou o papel de suas mãos e ligeiramente concluiu:


JB:

(…) … e me perdoe a irrepresentatividade daquelas pontes entre pontes,

Ao não finalizar essa ideia, você vai ver

vai te permitir enfim você mesmo o fazer

É que pra mim também ainda há muitos horizontes

há tanto que não consigo entender

e nem posso, nem quero,

não hei de compreender...

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